POEMA ÚMIDO
POEMA ÚMIDO
Mário de Oliveira
molhou todo o papel dos calendários
Mário de Oliveira
Chegando então a chuva veio março
molhou todo o papel dos calendários
os dias escorreram nas paredes
atrás do fundo podre dos armários.
deu lodo junto ao tanque, a samambaia
desceu pelos portais em grossas pencas,
infiltrações de verde sobre as lajes
cobriram-nas de musgo e de avencas.
os livros nas estantes deram mofo,
mofaram sob as camas os chinelos.
de dentro dos sapatos e das botas
romperam de imprevisto cogumelos.
a vida umideceu nas prateleiras
entre potes de barro e tardes frias,
pisou em poças d’água nas calçadas,
escorregou em limo muitos dias.
por fim arroz e trigo deram brotos,
nasceram tinhorões, o sol surgiu,
e como no princípio dos princípios
partiu levando março e trouxe abril.

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